terça-feira, 6 de setembro de 2016

Declaração da Associação Americana de Antropologia (AAA) sobre o conceito de "raças" humanas


A declaração a seguir foi adotada pelo Conselho Executivo da Associação Americana de Antropologia no dia 17 de Maio de 1998, sob projeto elaborado por uma comissão representativa de antropólogos americanos. Ela não reflete um consenso geral de todos os membros da AAA, visto que cada um tem sua própria abordagem dos estudos de "raça". Nós acreditamos que ela representa no geral o pensamento contemporâneo e as posições acadêmicas da maioria dos antropólogos.

Nos Estados Unidos, tanto os intelectuais quanto o público geral foram condicionados a ver as raças humanas como algo natural, como divisões dentro da espécie humana baseadas em diferenças físicas observáveis. Com a ampla expansão do conhecimento científico neste século, entretanto, tornou-se claro que as populações humanas não são grupos explicitamente biologicamente distintos. Evidências de análises genéticas (ex.: DNA) indicam que a maior parte da variação física, por volta de 94%, encontra-se dentro dos chamados grupos raciais. Diferentes grupos "raciais" geográficos, convencionalmente falando, diferem uns dos outros apenas em cerca de 6% dos seus genes. Em outras palavras, há mais variação dentro de um grupo "racial" que entre diferentes grupos. Em populações vizinhas, há muita sobreposição de genes e suas expressões fenotípicas (físicas). Ao longo da história, sempre que diferentes grupos têm entrado em contato, eles cruzaram entre si. O compartilhamento contínuo de material genético manteve a humanidade como uma única espécie.

Variações físicas em qualquer traço dado tendem a acontecer gradualmente ao invés de abruptamente em áreas geográficas. E porque traços físicos são herdados independentemente, saber o alcance de um traço não prevê a presença de outros. Por exemplo, a cor da pele varia enormemente de claro nas zonas temperadas ao norte a escuro nas zonas tropicais ao sul; sua intensidade não tem relação com a forma do nariz ou a textura do cabelo. A pele escura pode estar associada com cabelos frisados ou crespos, ou enrolados, ou ondulados, ou lisos - todos são encontrados em diferentes povos indígenas nas regiões tropicais. Esse fatos transformam qualquer tentativa de estabelecer linhas divisórias entre populações biológicas em tentativas arbitrárias e subjetivas.

Pesquisas históricas mostraram que a ideia de "raça" sempre carregou mais significados que meras diferenças físicas; com efeito, variações físicas nas espécies humanas não têm qualquer significado que não sejam os sociais que os próprios humanos atribuem. Hoje, intelectuais de vários campos argumentam que "raça" da forma que é entendida nos Estados Unidos da América era um mecanismo social inventado durante o século XVIII para se referir às populações trazidas para a América colonial: os ingleses e outros colonos europeus, as populações indígenas conquistadas, e os povos africanos trazidos para fim de trabalho escravo.

Desde seu princípio, esse conceito moderno de "raça" foi modelado a partir da antiga ideia da Scala Naturæ ou Cadeia dos Seres, que atribuía categorias naturais em uma hierarquia estabelecida por Deus ou pela natureza. Assim, "raça" era um modo de classificação ligado especificamente a pessoas em situação colonial. Isso subsumiu uma ideologia em crescimento de desigualdade concebida para racionalizar as atitudes dos Europeus e o tratamento dos povos conquistados e escravizados. Proponentes da escravidão, particularmente no século XIX, usaram "raça" para justificar a permanência da escravidão. A ideologia maximizou as diferenças entre europeus, africanos e indígenas, estabeleceu uma hierarquia rígida de categorias sociais exclusivas, reforçou posições desiguais e diferenças de status e forneceu a racionalização de que a desigualdade era natural ou dada por Deus. As diferenças físicas dos afro-americanos e indígenas tornaram-se marcas ou símbolos de suas diferenças de status.

Como eles estavam construindo a sociedade americana, líderes euro-americanos fabricaram as características culturais/comportamentais associadas à cada "raça", ligando traços superiores aos europeus e negativos e inferiores aos negros e índios. Inúmeras crenças arbitrárias e fictícias sobre os diferentes povos foram institucionalizadas e profundamente enraizadas no pensamento americano.

No começo do século XIX, os campos em crescimento da ciência começaram a refletir a consciência pública sobre diferenças humanas. Diferenças entre as categorias "raciais" eram projetadas ao extremo quando foi levantado o argumento de que africanos, indígenas e europeus eram espécies distintas, com os africanos sendo os menos humanos e taxonomicamente mais próximos dos macacos.

Por fim, o conceito de "raça" como uma ideologia sobre diferenças humanas foi subsequentemente espalhado para outras partes do mundo. Ele tornou-se uma estratégia para dividir, classificar e controlar povos colonizados, usada por potências coloniais em todos os lugares. Mas não foi limitada à situação colonial. No final do século XIX, foi utilizada pelos europeus para classificar uns aos outros e justificar desigualdades sociais, econômicas e políticas entre seus povos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas, sob o comando de Adolf Hitler, aproveitaram a ideologia expandida de "raça" e "diferenças raciais" e levaram-nas a um fim lógico: a exterminação de 11 milhões de pessoas de "raças inferiores" (ex.: judeus, ciganos, africanos, homossexuais e assim por diante) e outras brutalidades inexprimíveis do Holocausto.

O conceito de "raça", assim, evoluiu para uma visão mundial, um corpo de preconceitos que distorcem nossas ideias sobre diferenças humanas e comportamentos de grupo. Crenças raciais constituem mitos sobre a diversidade na espécie humana e sobre as habilidades e comportamentos de pessoas homogeneizadas em categorias "raciais". Esses mitos confundiram características comportamentais e físicas no pensamento público, impedindo nossa compreensão tanto das variações biológicas, quanto do comportamento cultural sugerindo que ambos são geneticamente determinados. Mitos raciais não têm qualquer relação com a realidade das capacidades humanas ou comportamento. Os cientistas de hoje verificam que contar com essas crenças folclóricas sobre diferenças humanas em pesquisas já levou a inúmeros erros.

No fim do século XX, nós agora entendemos que comportamentos culturais humanos são aprendidos, condicionados às crianças começando no nascimento, e sempre sujeito a modificação. Nenhum humano nasce com cultura ou linguagem pré-concebidos. Nossos temperamentos, disposições e personalidades, independente de propensões genéticas, são desenvolvidos dentro de uma lógica de significados e valores que nós chamamos de "cultura". Estudos de aprendizado e comportamento entre crianças atestam a realidade de que as culturas moldam quem somos.

É princípio básico do conhecimento antropológico que todos os seres humanos têm capacidade para aprender qualquer comportamento cultural. A experiência americana com imigrantes, de centenas de línguas e culturas diferentes, que adquiriram alguma versão dos traços culturais e comportamento americanos é a maior evidência desse fato. Ademais, pessoas de todas as variações físicas aprenderam diferentes comportamentos culturais, e continuam a fazê-lo à medida que os transportes modernos deslocam milhares de imigrantes ao redor do mundo.

Como as pessoas têm sido aceitas e tratadas dentro do contexto de uma dada sociedade ou cultura tem impacto direto em como elas atuarão nessa sociedade. A visão "racial" de mundo foi inventada para atribuir a alguns grupos um baixo status perpétuo, enquanto a outros foi permitido o acesso a privilégio, poder e riqueza. A tragédia nos Estados Unidos tem sido o fato de que as políticas e práticas decorrentes dessa visão de mundo conseguiram construir populações desiguais entre europeus, americanos nativos e afrodescendentes. Dado o que sabemos sobre a capacidade de seres humanos normais de funcionar dentro de qualquer cultura, concluímos que as desigualdades atuais entre os chamados "grupos raciais" não são consequências de sua herança biológica, mas produtos de circunstâncias sociais, econômicas, educacionais e políticas, tanto históricas quanto contemporâneas.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Macro-evolução explicada em cores

Todos podemos concordar (com exceção de alguns daltônicos) que este texto está em vermelho.

Da mesma forma, nós também podemos concordar que este texto está em azul.

Se nós temos um texto vermelho e decidimos mudá-lo um pouquinho, a mudança pode ser pouco perceptível, mas ainda é uma mudança. Essa será a nossa micro-evolução. Cada palavra até aqui pode ser considerada vermelha, com minúsculas mudanças na saturação. Se eu continuar escrevendo bastante, você seria capaz de me dizer, apenas ao olhar, em que palavra ou letra esse texto não é mais vermelho, e sim roxo ou azul? Essa micro-evolução continua acontecendo no texto, com suas pequenas mudanças de saturação, mas, no final, eu acabo com uma cor completamente diferente. A macro-evolução é justamente a diferença entre o que um consideraria vermelho e outro consideraria roxo (ou uma nova espécie, nessa analogia). Veja só, o erro comum das pessoas é achar que macro-evolução significa, por exemplo, que um cachorro tenha sido o descendente direto de outra escie canídea (como os lobos) ou, ainda pior, que um gato nasceu de um cachorro. Bem, isso não é macro-evolução. Só existe uma diferença real entre micro e macro-evolução, que é a mesma distinção de seus prefixos: micro e macro. Uma coisa microscópica, por ser tão pequena, necessita de um microscópio para ser vista. As coisas macroscópicas, por sua vez, são aquelas grandes o bastante para que consigamos vê-las a olho nu. Nesse texto, passamos por uma série de micro-evoluções, quase indistinguíveis, que, no final, geraram a macro-evolução entre duas cores completamente diferentes, do vermelho para o azul. Eu espero que isso ilustre como é ilógico pensar que a macro-evolução não acontece, apesar de ter existido tempo o bastante para que as micro-evoluções ocorressem.

Então, responda: qual foi a primeira palavra roxa no bloco de texto acima? Qual foi a primeira palavra azul? Lembre-se, se a macro-evolução não acontece, então você está afirmando que o que você está lendo agora ainda está em vermelho.

Texto adaptado do original em inglês.